Crítica de disco: Patricia – “Body Issues”

Patricia

O primeiro álbum de que aqui falamos ainda não é de 2014, nem sequer é do final de 2013, apesar de ter sido reeditado em vinil em Dezembro passado. Body Issues de Patricia, produtor nova-iorquino, foi lançado em Abril do ano passado pela londrina Opal Tapes, selo em forte ascensão nas margens do caldeirão britânico e, que além de Patrícia, já editou Huerco S, Tuff Sherm, 1991 ou o português IVVVO (All Hades of White, 2012).

Se o escolhemos no início deste novo ano, passados alguns meses depois do seu lançamento, é porque, para além de nos ter passado despercebido aquando do seu lançamento, Body Issues representa uma espécie de síntese daquilo que foram os caminhos de um techno que em 2013 se afirmou entre a recuperação de um certo espírito rave dos anos 90 e o recente legado, já não mais contornável, da bass music britânica do final da década passada. Ao longo de 7 faixas, Patricia desfila com segurança as suas influências, desde os Basic Channel aos mais recentes Actress ou Andy Stott, construindo um caminho sinuoso e ensombrado entre as batidas 4×4, as atmosferas negras, os baixos irregulares ou as progressões dissonantes. É música rica em texturas e que, por vezes, parece mais adequada a um certo recolhimento do que à pista de dança sem que, nem assim, se deixe esconder atrás dessa aparente timidez, seja pela solidez das suas batidas, seja por nos trazer indirectamente ao corpo o ambiente e a claustrofobia que determinavam como se dançava nas raves do início dos anos 90.

O que fica, no entanto, é uma certa reminiscência do que terão sido esses anos. Tudo parece, afinal, fragmento, eco e memória desfasada daquilo que já não é possível reconstituir como na primeira vez em que foi feito. É aqui que reside o grande alcance de Body Issues que, a par com outros produtores do catálogo de editoras como a Opal Tapes ou a Death of Rave, sintetizam de forma paradoxal os exercícios que continuam a ter a rave como referência já depois da morte da rave – no fundo, tudo aquilo que Mark Leckey pôs na inigualável peça Fuiricci Made Me Hardcore.

Não há nada de novo debaixo do sol depois de Body Issues. Mas, por vezes, a síntese do que está a acontecer e a procura, sempre frustrada à partida, pelo que já aconteceu são a melhor pista sobre o que está para vir. Neste caso, sobre 2014.

Manuel Bogalheiro.

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