Crítica de disco: Actress – “Ghettoville”

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Sempre houve uma ideia de futuro ou de antecipação na música de Actress. Essa ideia, no entanto, raramente esteve à superfície. Entrar na sua música não exige apenas um certo exercício de aprofundamento (neste caso, quase físico, como alguém que escava) para, no fundo das camadas de estranheza, de ruído e de irregularidade rítmica, podermos encontrar a sua beleza; entrar na sua música exige também que o tempo a deixe amadurecer em nós até que, e aí já não nos lembramos exactamente em que momento foi, o consolo e a gratificação se instalem em nós. É também depois do tempo passar que percebemos que aquilo que estava em potência na música de Actress acabou por se constituir como tendência seguida por tantos outros que ouvimos à nossa volta.

Depois de em Dezembro passado ter lançado o incrível EP Grey Over Blue (Ninja Tune), Actress lança o próximo álbum a 27 de Janeiro, também pela londrina Ninja Tune, ao qual nós já tivemos acesso. Não esperávamos que o fosse, mas confirmamos que a primeira audição destas 16 faixas não é esclarecedora. Talvez ainda menos do que o costume. Mas parece que durante a descida alguns aguilhões se espetaram em nós e nos fazem voltar. Se nunca tivemos dúvidas sobre a aura da faixa de abertura “Forgiven”, uma longa slow jam entre a vulnerabilidade do ritmo mecânico e o poder do toque humano, as faixas que se seguem na primeira metade do disco podem parecer esboços que foram transformados em temas demasiado longos. Nesta primeira metade, além de “Forgiven”, destaca-se a suavidade de “Our” e o seu escapismo ambiental, típico de outros exercícios de Actress. Mas o momento de viragem em Ghettoville dá-se a partir da faixa 10, “Gaze”, espécie de funk truncado, abrindo a parte mais segura do disco. “Frontline” lembra o último álbum R.I.P., “Skyline” introduz resquícios de techno duro, “Don’t” entranha-se como lamento de que não queremos sair e “Rap” presta o seu tributo como uma jukebox avariada. A última faixa , “Rule”, poderia ser um epílogo em torno daquele sample de hip-hop que Actress utiliza até sentirmos que, apesar de submetida a uma espécie de crash, se torna num dos momentos mais estranhamente dançáveis do disco.

Depois do universo pós-purgatório de R.I.P. (Honest Jon’s 2012), a maior obra da sua carreira, Ghettoville pode parecer não ter sempre o mesmo fôlego para conjugar a estranheza com a universalidade. Mas, repetimo-nos, os álbuns de Actress amadurecem de uma forma única e tal ideia de futuro continua lá: Actress como um vidente que nos mostra aquilo de que apenas suspeitávamos. Talvez agora se trate apenas de deixarmos o tempo fazer esse trabalho. Até lá, a verdade continua bem no fundo, à espera que nos atrevamos a ir encontrá-la.

Manuel Bogalheiro.

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