Crítica de disco: Burial: “Rival Dealer”

Aquele que foi um dos discos mais esperados de 2013 após o seu anúncio em cima da hora, como tem sido costume nos últimos tempos por parte de William Bevan (admitindo que é mesmo este o seu nome), acabou mesmo por ser dos EP’s que mais impacto teve no mundo da música electrónica e não só. Tanto pela estranheza e até, porque não, desconforto que causou em alguns dos fãs de longa data, cujas opiniões se dividem, como por ter uma mensagem tão específica no seu conteúdo (o que também nunca aconteceu), este foi claramente um disco diferente de todos outros que Burial já lançou. 

Começando pelo que o EP tenta transmitir, mesmo sendo perceptível pelas palavras escolhidas por Bevan nos samples que foi colando ao longo das 3 músicas, a mensagem fica esclarecida nos últimos segundos de “Come Down to Us”, com um excerto do discurso de Lana Waschowsky na gala de 2012 da HRC. De forma a tentar explicar-se um pouco melhor, Burial enviou ainda uma mensagem a Mary Anne Hobbs, da BBC Radio 6 (atitude também pouco habitual no histórico comunicacional do músico londrino): “I put my heart into the new EP, I hope someone likes it. I wanted the tunes to be anti-bullying tunes that could maybe help someone to believe in themselves, to not be afraid, and to not give up, and to know that someone out there cares and is looking out for them. So it’s like an angel’s spell to protect them against the unkind people, the dark times, and the self-doubts.”

Tudo isto, apesar de estranho e inesperado, acaba por encaixar relativamente bem na aura de um personagem como Burial, um “fantasma” criador de um mundo melancólico, obscuro e chuvoso, onde as vozes que se ouvem soam como que provenientes de andróides angelicais. Ao mesmo tempo, sendo alguém que simplesmente não quer aparecer, que não quer aquela fama e exposição mediática que associamos a qualquer artista de sucesso, tal como recalcou Four Tet na entrevista que deu para a Groove, Bevan encaixa bem na pele de herói sem rosto.

A abrir o EP vem o tema homónimo, o melhor do disco e talvez dos melhores que Burial já nos ofereceu, dividido em três partes distintas onde consegue envolver uma mensagem de encorajamento, incentivo e amor, relacionadas com a declarada temática do EP, com ambiências ruidosas e vivências de rave banhadas com as suas principais raízes musicais, (o garage, o hardcore, etc.) e terminando com o melhor que Burial tem para nos oferecer: as ambiências e melodias tão características que nos tocam a alma e nos levam para o melhor sítio onde poderíamos ir. Onde, perante qualquer escuridão, podemos apreciar as luzes da cidade, as estrelas, as constelações.

No lado B a velocidade reduz-se bastante, praticamente não há elementos rítmicos e as duas últimas músicas tornam-se numa autêntica balada de Natal conjunta. Ambas muito instrumentais para o que é habitual nas suas músicas e com muito mais vocais, Burial apresenta aqui uma reinvenção da sua música que, pelo menos nós, não vemos com bons olhos. Na verdade, mesmo não tendo deixado de fora os seus habituais pormenores orgânicos (alguns deles até repetidos de outras músicas), nem mesmo a chuva, a música soa diferente apesar de continuar com a sua marca própria. Pode ser menos obscura, menos misteriosa, e isso tira-lhe um pouco do seu carisma, mas dá-lhe por outro lado uma nova mística humanista.

Pela primeira vez a mensagem ganha peso na música de Burial, e isso é, no mínimo, um sinal de que ele não se sente bem na zona de conforto. E que foi um óptimo presente de Natal, lá isso foi.

JR

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s