Crítica: Demdike Stare – Série “Test Pressings”

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Enquanto 2014 não começa a sério, continuamos, em jeito de balanço, a olhar para algumas edições de 2013. Neste caso, para a série “Test Pressings” que os Demdike Stare lançaram ao longo do último ano através de quatro maxi-singles (#001, #002, #003 e #004) editados pela inglesa Modern Love, selo de Manchester do qual também faz parte outro cúmplice, Andy Stott.

Nem sempre importa, mas neste caso não é irrelevante: os Demdike Stare são um projecto que resulta da colaboração entre um Dj ligado ao techno, Miles Whittaker, e um dos colecionadores de discos com mais fama em Manchester, Sean Canty, com ligações a coisas tão heterogéneas como bandas sonoras de filmes de terror, psicadelismo dos anos 60 ou música experimental e concreta. O resultado desta colaboração, ou justaposição de origens, mostrou-se particularmente bem sucedido em “Tryptych”, a aclamada compilação lançada em 2011 que juntava três álbuns lançados no ano anterior: “Forest of Evil”, “Liberation Through Hearing” e “Voices of Dust”. O que se podia ouvir neste tríptico – algo entre o dub techno e o drone – já anunciava a ambição da sonoridade singular criada pelos Demdike Stare (e que, aliás, marcaria muitos dos seus companheiros na Modern Love), fosse na atenção obsessiva aos pormenores e às evoluções das texturas, fosse na ideia de espaço e de ambiência impressa ao longo de algumas faixas com mais de dez minutos, fosse no impulso para a desconstrução rítmica dos padrões instituídos na música – mesmo que experimental – de dança. Acima de tudo, percebia-se como se podiam empurrar os limites do familiar e do convencional sem que a estranheza se conseguisse sobrepor a tal.

Contextualizamos o passado para falarmos do novo alcance que “Test Pressings” representa. É que, sem que com isto critiquemos negativamente, os temas reunidos em “Tryptych” raramente saiam de um tom minimalista e de um mundo que, de tão singular, parecia fechado em si mesmo. Em “Test Pressings” estamos perante uma mudança de escala: todo o trabalho sobre as texturas e as ambiências continua presente (seja, de forma mais audível, no início de faixas como “Dislogy” ou em faixas inteiras como “Grows Without Bound 1”) mas todo esse lado discreto e minimalista parece estar sempre à beira de entrar numa tensão entrópica em direcção ao caos e ao descontrolo. Se tal acontece mesmo nas faixas mais calmas, é desconcertante como essa dinâmica maximalista se concretiza em temas como “Collision” ou “Null Results”, onde breaks de drum and bass e de hardcore irrompem, em grandes doses de compressão, pelas várias camadas que são sendo acumuladas. E aí, já não são apenas os Demdike Stare a reinventar-se mas também a prestar tributo a toda uma tradição de música de dança inglesa que os influenciou.

Agora que podemos ouvir os quatro lançamentos de “Test Pressings”, percebemos que os Demdike Stare não apenas não saíram do seu mundo como ainda o conseguiram expandir. Teste feito e aprovado.

Manuel Bogalheiro

 

 

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